Por Renata Souza de Andrade, Grupo Espírita Casa do Caminho, Guará II.

 

“… a verdade deve ser temperada com misericórdia e amor”

 

Começo nossa conversa relembrando uma antiga lição que vários escritores atribuem a Sócrates, “Os Três Crivos”.

“Certa feita, um homem esbaforido achegou-se ao grande filósofo Sócrates e sussurrou-lhe aos ouvidos:

– Escuta, Sócrates… Na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular…

– Espera!… – ajuntou o sábio prudente. – Já passaste o que me vais dizer pelos três crivos?

– Três crivos?! – perguntou o visitante, espantado.

– Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se a tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que me pretendes comunicar?

– Bem, ponderou o interlocutor – assegurar, mesmo, não posso… Mas ouvi dizer e… então…

– Exato. Decerto peneiraste o assunto pelo segundo crivo, o crivo da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?

Hesitando, o homem replicou:

– Isso não!… Muito pelo contrário…

– Ah! – tornou o sábio – então recorramos ao terceiro crivo: o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.

– Útil?!… – aduziu o visitante ainda mais agitado – Útil não é…

– Bem – rematou o filósofo num sorriso –, se o que me tens a confiar não é verdadeiro, nem é bom e nem é útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem qualquer edificação para nós…”

Cuida-se de lição a não ser esquecida, já que nos remete ao Cristo, sempre a nos solicitar o cuidado com o outro, reconhecendo, em todos, irmãos em Deus, merecedores do nosso respeito.

É reflexão importante para a educação do nosso verbo, sempre pronto para expulsar a verdade, lançando-a ao mundo ou sobre a alma, não raras vezes, já atormentada pelas suas mazelas morais.

Esquecidos do poder da palavra, que é um dos mais belos instrumentos de construção no bem, porquanto meio rápido de divulgar a Boa Nova, levando a todos, em todos os lugares, o alento e a esperança no porvir, a convertemos, invigilantes, em estiletes envenenados, produzindo feridas profundas naqueles a quem deveríamos cuidar e amar.

Na vivência cotidiana, imergidos nas adversidades próprias da vida encarnada, muitas vezes, encontramos dificuldades em refrear nossas más tendências, como aquela “sinceridade aguda”, que nos faz, de fato, acreditar que: “Eu não falei nada de mais, só falei a verdade. É puro melindre de quem ouve.”

Reflitamos, então, no que seja realmente “a verdade”. O quanto sabemos dos fatos e das circunstâncias? O que conhecemos da realidade do outro? Onde alcança nossa visão limitada e carregada de preconceitos? Somos qualificados para revelar a verdade sobre alguém? Minha intenção é auxiliar na melhora íntima do outro ou satisfazer interesses pessoais?

Recordemos o Cristo, que, reconhecendo em Judas um apóstolo invigilante, não lhe joga à face a traição próxima, porque também reconhece nele a criatura falível que, mesmo o amando, não compreendeu sua grandeza, e recorreu aos poderes do mundo, iludido sobre a real natureza do reino de Deus.

O Mestre amantíssimo, como nos revela Humberto de Campos, no livro Boa Nova, cap. 20, embora desvendasse a intimidade da obsediada de Magdala, a acolhe como filha querida, indicando-lhe o caminho da redenção, ao ensinar-lhe que: “Só o amor que renuncia sabe caminhar para vida suprema!…”. Ouvindo, então, daquele coração sedento de paz: “Senhor doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor divino que me ensinaste!…”

E assim o fez. Dedicando sua vida a amar, renunciou a todas as paixões efêmeras, cuidando dos esquecidos, mais esquecidos dentre todos, até desencarnar e, nos seus derradeiros instantes, vislumbrar a figura augusta do Cristo a lhe dizer: “Maria, passaste pela porta estreita!…Amaste muito! Vem! Eu te espero aqui!”.

O Cristo, perseguido por Saulo de Tarso, na figura dos mais deserdados da Terra, os quais foram vítimas da intemperança do doutor da lei, não o reprova, mas, no caminho de Damasco, apenas lhe indaga: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Ao que, àquela alma, até então orgulhosa e feroz, dobra seus joelhos e se converte ao Evangelho de Jesus. A humanidade, nesse instante, ganha o apóstolo da fé, cuja participação na conversão de almas aflitas, ainda hoje, merece nossa gratidão.

Poderíamos consumir todas as linhas da vida, enunciando exemplos do Cristo, no uso perfeito do silêncio e do verbo, que, seguidos da vivência, permanecem transformando o mundo e reencaminhando as almas perdidas de nosso Pai de retorno à casa celestial.

É, meus amigos, o poder do amor, que silencia o reproche, para exaltar a criatura divina, convidando-a ao melhoramento de si mesma, na busca da felicidade eterna.

Aceitando o convite do amigo inolvidável, recordemos a necessidade de combater o mal, lembrando que também o silêncio é arma poderosa de pacificação íntima e coletiva, se traduzido em caridade amiga.

Assim, quanto possível, silenciemos nossas “meias verdades”, mas,# se nos for imprescindível falar, com alguém ou sobre outrem, guardemos a gentileza de expressar apenas o que for verdadeiro, lembrando que mesmo a verdade deve ser temperada com misericórdia e amor.

Ajamos, então, em proveito de nós mesmos, envolvendo nosso falar em doçura e afabilidade, verdade e utilidade, para que se traduza em manifesta bondade, afinando nosso instrumento para servir ao Mestre amigo no socorro a almas irmãs e na difusão do amor, sentimento este que, por excelência, nos deve guiar os passos na senda evolutiva.